domingo, maio 19, 2013

Desistir

Desistir não é simplesmente abandonar
É principalmente transgredir, transformar

É acima de tudo subverter
Refugar, arremeter
Freiar, estancar, respirar

É entrar em contato
Com o elemento acomodado
E incomodá-lo

Desacostumar-se
Soltar a gravata
Da forca libertar-se
Do opressor que maltrata

Para desistir é preciso coragem
Deixar o porto seguro
Que já ficou escuro
E lançar-se no vazio

Mudar de lugar
Submeter-se ao calor e ao frio
Abdicar à paisagem
Que agora não passa de miragem.

domingo, maio 12, 2013

Quando um torna-se dois

Na hora mais escura e fria
Aquela que antecede o raiar do dia
Lá foi ele com vontade
Em busca de paz e liberdade

Sem saber ao certo o que queria
Mas com a certeza que não mais podia
Dar de si sem a retribuição
Do reconhecimento pela dedicação

Dos anos de vida em comum
Com suas dores, delícias, tédios, erupções
Em que dois tornaram-se um
Mas, enfim, cada um precisou viver suas próprias emoções

Então o um tornou-se novamente dois
O que era comum antes
Virou meu e seu depois

E da vida dos que já foram amantes
Restam as lembranças de tudo o que um dia foi.

domingo, abril 28, 2013

Intransferível


Há 15 anos
Uma ferida sangra
No fundo do peito
E não cicatriza

Ao menos agora
Posso senti-la
Tocar sua carne
Verbalizá-la

Viver esta dor
É intransferível
Por isso permito

Vivê-la a cada instante
Cuidá-la a cada dia
Até o meu último.


Ciço Pereira, 28/04/2013.

quinta-feira, março 14, 2013

Tão pouco

Seguindo a lição do profeta
Compartilhemos a gentileza
O mesmo faz este poeta
Disseminando a delicadeza

Aquela tão escassa
Perdida e opaca
Que se perde na fumaça
Preta, branca ou laica

Nas filas dos coletivos
No pregão financeiro
Nos semáforos rubros ou olivos
Com aquele que te pede dinheiro

Deixar passar
Por alguém esperar
Oferecer um olhar
Estender a mão
Ajudar a levantar

Gestos tão simples
Não custam tostão
Mas valem sorriso
E fazem bem a um coração.

sexta-feira, março 08, 2013

Caso do vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?


Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.


Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?


Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.


Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.


Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.


O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.


Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!


Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.


Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.


E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 


se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,


chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,


me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,


mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.


Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 


beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.


Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,


me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,


que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...


Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.


Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.


Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.


Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.


E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.


Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.


Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,


só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.


Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.


Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.


O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 


mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.


Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.


Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.


Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 


visitei vossos parentes,
não comia, não falava,


tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.


Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,


perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,


minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,


minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.


Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.


Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,


pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.


Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,


que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 


última peça de luxo
que guardei como lembrança


daquele dia de cobra,
da maior humilhação.


Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.


Mas então ele enjoado
confessou que só gostava


de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,


fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,


me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,


me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,


bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,


dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.


Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito


de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.


Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.


Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?


quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?


quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?


quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?


Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.


Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.


Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada


vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,


mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,


põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,


comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,


comia meio de lado
e nem estava mais velho.


O barulho da comida
na boca, me acalentava,


me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito


de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.


Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.



Carlos Drummond de Andrade
"Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Não tá fácil pra ninguém


- Tá boa a água?
- Tá ó-ti-ma, amiga! Mas a frequência aqui no Country não é mais a mesma, né?
- É mesmo. Caiu demais o público.
- Outro dia mesmo chegou um pessoal da zona norte que trouxe o rádio, as mulheres começaram a passar blondon e as crianças comendo fandangos. Ficou tudo sujo em volta.
- Aff... Deu na Vejinha que os lugares onde tem ponto final de ônibus são os mais poluídos.
- E os arrastões?
- Pode crê. O Rio tá foda.
- É, mas tá mudando. O Cabral e o Paes tão colocando ordem nisso aqui. E o Eike também.
- Pode ser, mas eu queria mesmo viajar. Alguma ideia?
- Búzios já tá muito favelado. No Brasil, o melhor é Trancoso. Um sonho!
- Ah, não, queria ir pra fora.
- Ano passado fui pra Varadero, conhece?
- Não, onde fica?
- Cuba, bobinha... rsrsrsrs
- Ah, não, deus me livre, a terra daqueles barbudos comunistas... viu aquela menina que veio pro Brasil? Disse que lá não tem liberdade de expressão, uma coisa horrível. Imagina isso aqui? Tirar o Jornal Nacional do ar, proibir a Veja de circular? É o que tão tentando fazer na Argentina... que medo!
- Isso é verdade. Mas Varadero é ótimo! Tem excelentes resorts, tudo all inclusive. Só não vai pra Havana... muita pobreza, gente pedindo dinheiro na rua...
- E Paris?
- Paris tá o ó. Não dá mais. Depois dos peixe urbanos da vida, os aviões vivem lotados da tal da classe “c”, atraso bagarai...
- Foi o Lula que fez isso, né? Bem que eu votei naquele outro, o... ah, já esqueci.
- Aécio?
- Isso!
- E os hotéis de Paris? Muito hotelzinho chinfrim, caindo aos pedaços, elevador que só entra uma pessoa, mas a mala fica.
- Péssimo, né?
- E aquele seu amigo, que sempre tem boas dicas de lá, tá no feice?
- Tá sim, procura lá no meu perfil e adiciona.
- Peraí que eu entro aqui agora... foi!
- Então, o negócio é ficar em rede de hotel americano. Procura o Sofitel Le Faubourg. Não tem erro. Tudo limpinho, arrumadinho, café da manhã maravilhoso, do lado da Champs Elysées...
- Que máximo! Já vou curtir.
- Vou entrar aqui pra dar uma curtida também.
- ...
- ...
- E hoje à noite, qual é a boa?
- Não sei ainda, a náite do Rio tá muito fraca, só mulher e viado. Não tem mais homem solteiro e bonito não. E rico então, nem se fala... hauhauahauahau...
- Hauhauahauahau...
- E a lei seca?
- Tá foda, né? Não tão aliviando nem quem tem dinheiro.
- É, tá difícil mesmo.
- Ah, já sei. To vendo uma aqui no feice que tá bombando, todos os amigos tão curtindo, é perto e dá pra ir de taxi.
- O quê?
- Samba no Dona Marta, já ouviu falar?
- Na favela? Mas é seguro?
- Claro! Não sabe que lá tá com UPP agora?
- Sei... e não vai gente do morro não?
- Nada, só gente bonita, aqui de baixo. Tem até um conhecido do primo de um amigo meu, que eu já dei uns pegas que pode botar a gente pra dentro. Partiu?
- Partiu!

domingo, fevereiro 17, 2013

Fim de carnaval


De que vale o sol brilhante
A areia escaldante
A onda beijando a rocha
O sorriso da cabrocha

Para que o chope gelado
O abraço apertado
O gol marcado
Na final do campeonato

Não me venha com batucada
Odalisca ou colombina
À frente da bateria
Na garagem ou na escada

Sair junto pra passear
Calçadão ou mesa de bar
Jantarzinho a dois
Motel e cigarrinho depois

Se a alegria não mais está comigo
A saudade já ganhou abrigo
A tristeza se apoderou de mim
E a solidão foi o que restou
Enfim.


Ciço Pereira
17/02/2013.