Viva a pluraridade! Dane-se o pensamento único! Expresse a sua opinião sem auto-censuras. Seja livre para discordar de quem quiser, até de si mesmo...Mate o seu pai, seu patrão, seu pastor, seu professor... Mate você mesmo e dê à luz um outro você. Crie algo novo! Descubra outros lugares, novas possibilidades. Ame! Odeie! Mas acima de tudo discorde! Discorde mesmo deste blog! Mas com todo o respeito, é claro!
domingo, abril 28, 2013
Intransferível
Há 15 anos
Uma ferida sangra
No fundo do peito
E não cicatriza
Ao menos agora
Posso senti-la
Tocar sua carne
Verbalizá-la
Viver esta dor
É intransferível
Por isso permito
Vivê-la a cada instante
Cuidá-la a cada dia
Até o meu último.
Ciço Pereira, 28/04/2013.
quinta-feira, março 14, 2013
Tão pouco
Compartilhemos a gentileza
O mesmo faz este poeta
Disseminando a delicadeza
Aquela tão escassa
Perdida e opaca
Que se perde na fumaça
Preta, branca ou laica
Nas filas dos coletivos
No pregão financeiro
Nos semáforos rubros ou olivos
Com aquele que te pede dinheiro
Deixar passar
Por alguém esperar
Oferecer um olhar
Estender a mão
Ajudar a levantar
Gestos tão simples
Não custam tostão
Mas valem sorriso
E fazem bem a um coração.
sexta-feira, março 08, 2013
Caso do vestido
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.
Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
Carlos Drummond de Andrade
"Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
Não tá fácil pra ninguém
- Tá boa a água?
- Tá ó-ti-ma, amiga! Mas a frequência aqui no Country não é mais a mesma, né?
- É mesmo. Caiu demais o público.
- Outro dia mesmo chegou um pessoal da zona norte que trouxe o rádio, as mulheres começaram a passar blondon e as crianças comendo fandangos. Ficou tudo sujo em volta.
- Aff... Deu na Vejinha que os lugares onde tem ponto final de ônibus são os mais poluídos.
- E os arrastões?
- Pode crê. O Rio tá foda.
- É, mas tá mudando. O Cabral e o Paes tão colocando ordem nisso aqui. E o Eike também.
- Pode ser, mas eu queria mesmo viajar. Alguma ideia?
- Búzios já tá muito favelado. No Brasil, o melhor é Trancoso. Um sonho!
- Ah, não, queria ir pra fora.
- Ano passado fui pra Varadero, conhece?
- Não, onde fica?
- Cuba, bobinha... rsrsrsrs
- Ah, não, deus me livre, a terra daqueles barbudos comunistas... viu aquela menina que veio pro Brasil? Disse que lá não tem liberdade de expressão, uma coisa horrível. Imagina isso aqui? Tirar o Jornal Nacional do ar, proibir a Veja de circular? É o que tão tentando fazer na Argentina... que medo!
- Isso é verdade. Mas Varadero é ótimo! Tem excelentes resorts, tudo all inclusive. Só não vai pra Havana... muita pobreza, gente pedindo dinheiro na rua...
- E Paris?
- Paris tá o ó. Não dá mais. Depois dos peixe urbanos da vida, os aviões vivem lotados da tal da classe “c”, atraso bagarai...
- Foi o Lula que fez isso, né? Bem que eu votei naquele outro, o... ah, já esqueci.
- Aécio?
- Isso!
- E os hotéis de Paris? Muito hotelzinho chinfrim, caindo aos pedaços, elevador que só entra uma pessoa, mas a mala fica.
- Péssimo, né?
- E aquele seu amigo, que sempre tem boas dicas de lá, tá no feice?
- Tá sim, procura lá no meu perfil e adiciona.
- Peraí que eu entro aqui agora... foi!
- Então, o negócio é ficar em rede de hotel americano. Procura o Sofitel Le Faubourg. Não tem erro. Tudo limpinho, arrumadinho, café da manhã maravilhoso, do lado da Champs Elysées...
- Que máximo! Já vou curtir.
- Vou entrar aqui pra dar uma curtida também.
- ...
- ...
- E hoje à noite, qual é a boa?
- Não sei ainda, a náite do Rio tá muito fraca, só mulher e viado. Não tem mais homem solteiro e bonito não. E rico então, nem se fala... hauhauahauahau...
- Hauhauahauahau...
- E a lei seca?
- Tá foda, né? Não tão aliviando nem quem tem dinheiro.
- É, tá difícil mesmo.
- Ah, já sei. To vendo uma aqui no feice que tá bombando, todos os amigos tão curtindo, é perto e dá pra ir de taxi.
- O quê?
- Samba no Dona Marta, já ouviu falar?
- Na favela? Mas é seguro?
- Claro! Não sabe que lá tá com UPP agora?
- Sei... e não vai gente do morro não?
- Nada, só gente bonita, aqui de baixo. Tem até um conhecido do primo de um amigo meu, que eu já dei uns pegas que pode botar a gente pra dentro. Partiu?
- Partiu!
domingo, fevereiro 17, 2013
Fim de carnaval
De que vale o sol brilhante
A areia escaldante
A onda beijando a rocha
O sorriso da cabrocha
Para que o chope gelado
O abraço apertado
O gol marcado
Na final do campeonato
Não me venha com batucada
Odalisca ou colombina
À frente da bateria
Na garagem ou na escada
Sair junto pra passear
Calçadão ou mesa de bar
Jantarzinho a dois
Motel e cigarrinho depois
Se a alegria não mais está comigo
A saudade já ganhou abrigo
A tristeza se apoderou de mim
E a solidão foi o que restou
Enfim.
Ciço Pereira
17/02/2013.
terça-feira, dezembro 25, 2012
Hereditária capitania
O cume Pascoal
Encantou Portugal
Em nossa história
Ficou na memória
Aquela avisada
À beira da´strada
Em portos inseguros baianos
Negros, guaranis e tamoios
Carne barata à venda
Mil réis em cada fazenda
Trabalho escravo
Até hoje mal pago
O quinhão dos capitães
É o lucro dos Magalhães
Hereditária capitania
É a história da Bahia
Em Salvador
À benção nosso senhor
Do Bonfim é o redentor
Para esquecer o que há por perto
Elegemos agora o neto
Nova geração do capitão
Perpetuando a dominação
Do povo oprimido
Maltratado e aflito
Mas mesmo assim não se cansa
E insiste em manter a esperança.
Ciço Pereira.
Salvador, 25/12/12.
sábado, dezembro 15, 2012
À espera
Inevitável, no horizonte surgiu
Desvirginado, o negro fez-se anil
Seca o´rvalho, desperta o galo, reflete no mar
A ilusão de que um dia melhor acaba de chegar
De pronto devora
O naco de pão fugaz
O café de amargar
O beijo protocolar
Tão logo celebra
A vida que s´esvai
No banco quebrado
Do vagão lotado
No funk bem alto
Do rádio ligado
No salmo recitado
Do pregador exaltado
Tolera anestesiado
A cobrança do patrão
A fofoca ao lado
O aumento da condução
O soldo minguado
De volta se entrega
À comida sem sal
Ao minuto comercial
Ao zero a zero professoral
Ao sexo banal
Inexorável, estrelas no céu cintilam
Cá embaixo, pessoas silenciam
Sonham com dias ideais
Padecem sob mausoléus digitais
À espera
Como seus pais padeciam.
Ciço Pereira
Rio, 15 de dezembro de 2012.
sábado, dezembro 01, 2012
Auto-ajuda
Sigo meu caminho
Certo ou errado
Sigo meu caminho
Suave o equilíbrio
Dura é a queda
Conquistas e perdas
Meras oscilações de vida
Conhece-te a ti mesmo
E surpreenda-se
Outros são os outros
Outro dia caminho
Sigo meu após
Errado ou certo
Sigo meu após
Duro o equilíbrio
Suave é a queda
Meras conquistas
Perdas de vida
Surpreenda-se a ti mesmo
E conhece-te
Outros são os outros.
Ciço Pereira, 01/12/2012.
sábado, novembro 24, 2012
Incondicional
Não me interprete mal
Meu sentimento
É incondicional
Nossas brigas
São coisa normal
De qualquer casal
Não me sinto bem
Quando você não vem
Parece não perceber
Que faço tudo por você
E tenho que dizer
O que está cansada de saber:
Que a minha vida
Não é nada sem você.
Rio, 24/11/2012.
quarta-feira, novembro 07, 2012
Meditação
Concentro
Para me tornar
Sereno
Por dentro
Sinto queimar o olhar
Alheio
Não deixo
Me tocar
O veneno
Do outro
Medito
Para aquietar
O que ficou
Não dito
O intelecto
É mais forte
Que o sentimento
É o norte
Mas também a morte
Do que ficou por dentro
Ciço Pereira, 07/11/2012.
terça-feira, setembro 18, 2012
Fúria
quarta-feira, julho 25, 2012
O que é a vida?
A vida é aqui
A vida é agora
Num instante ela vai embora
A vida é o calor
Do asfalto quente
A vida é o frio
Do corpo doente
É o sorriso da criança
O choro da menina
As pernas da passista
Quando ela dança
A alegria da vitória
A tristeza da derrota
O abraço dos amigos
A lágrima solitária
É o copo vazio ou cheio
A vida é o meio a meio
A vida é uma rua iluminada
A vida é a lâmpada queimada
A vida é o texto decorado
É aquilo que sai errado
A vida é a solidão do cárcere
É o segundo anterior ao êxtase
É questão de vida ou morte
A vida é azar ou sorte
A vida é o fio
Riscado do pavio.
Ciço Pereira, 25/07/2012.
terça-feira, maio 15, 2012
Esperando o que Jesus prometeu
Sacerdotes ateus
Surrupiam os teus
Bens, mas não te querem
Bem. Se prometem
Na terra o paraíso
Não é por isso
Que fazem o clamor
À salvação do nosso senhor
O dízimo é o ingresso
Para a eternidade
Mas não vem impresso
O direito à felicidade
Enquanto não morrer
Pague em dia e agradeça
Por ainda ter o de comer
Ore, trabalhe, não esmoreça
Aos maus pensamentos, perdão
Continue, abaixe a cabeça
Penitência e abnegação.
sexta-feira, abril 13, 2012
Profecia
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Soneto do amor interrompido
domingo, agosto 14, 2011
Excesso
sábado, maio 21, 2011
Revolução made in Brazil
sexta-feira, julho 16, 2010
Brasil

minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.
Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.
Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo --
pra tocar.
Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas...
Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão...
Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.
Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.
Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.
Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas
Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão
E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.
Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
Letra: Menina Jesus, de Tom Zé.
Memórias
sexta-feira, abril 09, 2010
Sois culpados

“Sois culpados”, sentenciam presidente, governador e prefeito, em meio à campanha eleitoral majoritária, cujo carro-chefe, o PAC, redimirá todos nós.
“Sois culpados”, corroboram Bonner e Bernardes, portavozes do grande capital, em horário nobre, do alto dos púlpitos televisivos do quarto poder.
“Sois culpados”, bradam os conservadores Democratas em referência aos africanos traficados d’além-mar, supostamente escravizados por seus próprios monarcas.
“Sois culpados”, decretava o alcaide Barata Ribeiro quando, no ocaso do século XIX, proclamando o fim da “era dos cortiços”, sem saber que dava início à “era das favelas”.
“Sois culpados”, entoavam Lacerda, Negrão de Lima, Faria Lima e tantos outros que pretendiam remover as favelas do cenário urbano carioca, ignorando a força e a importância daqueles que trabalham de sol a sol para trazer prosperidade ao comércio, serviços e lares de toda cidade do Rio de Janeiro.
“Sois culpados”, clama em uníssono a sociedade civil burguesa para a descomunal massa de excluídos, na tentativa de eximir suas consciências do dolo e da inércia frente à gravíssima iniqüidade da qual é, ao mesmo tempo, vítima, cúmplice e ré.







