quinta-feira, março 14, 2013

Tão pouco

Seguindo a lição do profeta
Compartilhemos a gentileza
O mesmo faz este poeta
Disseminando a delicadeza

Aquela tão escassa
Perdida e opaca
Que se perde na fumaça
Preta, branca ou laica

Nas filas dos coletivos
No pregão financeiro
Nos semáforos rubros ou olivos
Com aquele que te pede dinheiro

Deixar passar
Por alguém esperar
Oferecer um olhar
Estender a mão
Ajudar a levantar

Gestos tão simples
Não custam tostão
Mas valem sorriso
E fazem bem a um coração.

sexta-feira, março 08, 2013

Caso do vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?


Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.


Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?


Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.


Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.


Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.


O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.


Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!


Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.


Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.


E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 


se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,


chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,


me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,


mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.


Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 


beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.


Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,


me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,


que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...


Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.


Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.


Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.


Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.


E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.


Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.


Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,


só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.


Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.


Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.


O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 


mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.


Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.


Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.


Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 


visitei vossos parentes,
não comia, não falava,


tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.


Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,


perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,


minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,


minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.


Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.


Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,


pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.


Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,


que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 


última peça de luxo
que guardei como lembrança


daquele dia de cobra,
da maior humilhação.


Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.


Mas então ele enjoado
confessou que só gostava


de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,


fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,


me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,


me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,


bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,


dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.


Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito


de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.


Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.


Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?


quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?


quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?


quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?


Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.


Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.


Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada


vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,


mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,


põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,


comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,


comia meio de lado
e nem estava mais velho.


O barulho da comida
na boca, me acalentava,


me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito


de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.


Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.



Carlos Drummond de Andrade
"Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Não tá fácil pra ninguém


- Tá boa a água?
- Tá ó-ti-ma, amiga! Mas a frequência aqui no Country não é mais a mesma, né?
- É mesmo. Caiu demais o público.
- Outro dia mesmo chegou um pessoal da zona norte que trouxe o rádio, as mulheres começaram a passar blondon e as crianças comendo fandangos. Ficou tudo sujo em volta.
- Aff... Deu na Vejinha que os lugares onde tem ponto final de ônibus são os mais poluídos.
- E os arrastões?
- Pode crê. O Rio tá foda.
- É, mas tá mudando. O Cabral e o Paes tão colocando ordem nisso aqui. E o Eike também.
- Pode ser, mas eu queria mesmo viajar. Alguma ideia?
- Búzios já tá muito favelado. No Brasil, o melhor é Trancoso. Um sonho!
- Ah, não, queria ir pra fora.
- Ano passado fui pra Varadero, conhece?
- Não, onde fica?
- Cuba, bobinha... rsrsrsrs
- Ah, não, deus me livre, a terra daqueles barbudos comunistas... viu aquela menina que veio pro Brasil? Disse que lá não tem liberdade de expressão, uma coisa horrível. Imagina isso aqui? Tirar o Jornal Nacional do ar, proibir a Veja de circular? É o que tão tentando fazer na Argentina... que medo!
- Isso é verdade. Mas Varadero é ótimo! Tem excelentes resorts, tudo all inclusive. Só não vai pra Havana... muita pobreza, gente pedindo dinheiro na rua...
- E Paris?
- Paris tá o ó. Não dá mais. Depois dos peixe urbanos da vida, os aviões vivem lotados da tal da classe “c”, atraso bagarai...
- Foi o Lula que fez isso, né? Bem que eu votei naquele outro, o... ah, já esqueci.
- Aécio?
- Isso!
- E os hotéis de Paris? Muito hotelzinho chinfrim, caindo aos pedaços, elevador que só entra uma pessoa, mas a mala fica.
- Péssimo, né?
- E aquele seu amigo, que sempre tem boas dicas de lá, tá no feice?
- Tá sim, procura lá no meu perfil e adiciona.
- Peraí que eu entro aqui agora... foi!
- Então, o negócio é ficar em rede de hotel americano. Procura o Sofitel Le Faubourg. Não tem erro. Tudo limpinho, arrumadinho, café da manhã maravilhoso, do lado da Champs Elysées...
- Que máximo! Já vou curtir.
- Vou entrar aqui pra dar uma curtida também.
- ...
- ...
- E hoje à noite, qual é a boa?
- Não sei ainda, a náite do Rio tá muito fraca, só mulher e viado. Não tem mais homem solteiro e bonito não. E rico então, nem se fala... hauhauahauahau...
- Hauhauahauahau...
- E a lei seca?
- Tá foda, né? Não tão aliviando nem quem tem dinheiro.
- É, tá difícil mesmo.
- Ah, já sei. To vendo uma aqui no feice que tá bombando, todos os amigos tão curtindo, é perto e dá pra ir de taxi.
- O quê?
- Samba no Dona Marta, já ouviu falar?
- Na favela? Mas é seguro?
- Claro! Não sabe que lá tá com UPP agora?
- Sei... e não vai gente do morro não?
- Nada, só gente bonita, aqui de baixo. Tem até um conhecido do primo de um amigo meu, que eu já dei uns pegas que pode botar a gente pra dentro. Partiu?
- Partiu!

domingo, fevereiro 17, 2013

Fim de carnaval


De que vale o sol brilhante
A areia escaldante
A onda beijando a rocha
O sorriso da cabrocha

Para que o chope gelado
O abraço apertado
O gol marcado
Na final do campeonato

Não me venha com batucada
Odalisca ou colombina
À frente da bateria
Na garagem ou na escada

Sair junto pra passear
Calçadão ou mesa de bar
Jantarzinho a dois
Motel e cigarrinho depois

Se a alegria não mais está comigo
A saudade já ganhou abrigo
A tristeza se apoderou de mim
E a solidão foi o que restou
Enfim.


Ciço Pereira
17/02/2013.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Hereditária capitania


O cume Pascoal
Encantou Portugal

Em nossa história
Ficou na memória
Aquela avisada
À beira da´strada

Em portos inseguros baianos
Negros, guaranis e tamoios

Carne barata à venda
Mil réis em cada fazenda
Trabalho escravo
Até hoje mal pago

O quinhão dos capitães
É o lucro dos Magalhães
Hereditária capitania
É a história da Bahia

Em Salvador
À benção nosso senhor
Do Bonfim é o redentor

Para esquecer o que há por perto
Elegemos agora o neto
Nova geração do capitão
Perpetuando a dominação

Do povo oprimido
Maltratado e aflito
Mas mesmo assim não se cansa
E insiste em manter a esperança.

Ciço Pereira.
Salvador, 25/12/12.

sábado, dezembro 15, 2012

À espera


Inevitável, no horizonte surgiu
Desvirginado, o negro fez-se anil
Seca o´rvalho, desperta o galo, reflete no mar
A ilusão de que um dia melhor acaba de chegar

De pronto devora
O naco de pão fugaz
O café de amargar
O beijo protocolar

Tão logo celebra
A vida que s´esvai

No banco quebrado
Do vagão lotado
No funk bem alto
Do rádio ligado
No salmo recitado
Do pregador exaltado

Tolera anestesiado
A cobrança do patrão
A fofoca ao lado
O aumento da condução
O soldo minguado

De volta se entrega
À comida sem sal
Ao minuto comercial
Ao zero a zero professoral
Ao sexo banal

Inexorável, estrelas no céu cintilam
Cá embaixo, pessoas silenciam
Sonham com dias ideais
Padecem sob mausoléus digitais

À espera
Como seus pais padeciam.

Ciço Pereira
Rio, 15 de dezembro de 2012.

sábado, dezembro 01, 2012

Auto-ajuda

Um dia após o outro
Sigo meu caminho

Certo ou errado
Sigo meu caminho

Suave o equilíbrio
Dura é a queda

Conquistas e perdas
Meras oscilações de vida

Conhece-te a ti mesmo
E surpreenda-se

Outros são os outros

Outro dia caminho
Sigo meu após

Errado ou certo
Sigo meu após

Duro o equilíbrio
Suave é a queda

Meras conquistas
Perdas de vida

Surpreenda-se a ti mesmo
E conhece-te

Outros são os outros.

Ciço Pereira, 01/12/2012.


sábado, novembro 24, 2012

Incondicional

Meu amor
Não me interprete mal
Meu sentimento
É incondicional

Nossas brigas
São coisa normal
De qualquer casal

Não me sinto bem
Quando você não vem
Parece não perceber
Que faço tudo por você

E tenho que dizer
O que está cansada de saber:
Que a minha vida
Não é nada sem você.

Rio, 24/11/2012.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Meditação



Concentro
Para me tornar
Sereno

Por dentro
Sinto queimar o olhar
Alheio

Não deixo
Me tocar
O veneno
Do outro

Medito
Para aquietar
O que ficou
Não dito

O intelecto
É mais forte
Que o sentimento

É o norte
Mas também a morte
Do que ficou por dentro

Ciço Pereira, 07/11/2012.

terça-feira, setembro 18, 2012

Fúria















Fúria

Que fura
Corrói
Arde
Dói

Maltrata
Acaba
Com a paz
Me mata

Dipersa
Altera
O espírito

Atormenta
Impede
A evolução.

Ciço Pereira
Rio, 18 de setembro de 2012.

quarta-feira, julho 25, 2012

O que é a vida?







A vida é aqui
A vida é agora
Num instante ela vai embora

A vida é o calor
Do asfalto quente
A vida é o frio
Do corpo doente

É o sorriso da criança
O choro da menina
As pernas da passista
Quando ela dança

A alegria da vitória
A tristeza da derrota
O abraço dos amigos
A lágrima solitária

É o copo vazio ou cheio
A vida é o meio a meio

A vida é uma rua iluminada
A vida é a lâmpada queimada

A vida é o texto decorado
É aquilo que sai errado

A vida é a solidão do cárcere
É o segundo anterior ao êxtase

É questão de vida ou morte
A vida é azar ou sorte

A vida é o fio
Riscado do pavio.

Ciço Pereira, 25/07/2012.

terça-feira, maio 15, 2012

Esperando o que Jesus prometeu





Sacerdotes ateus
Surrupiam os teus
Bens, mas não te querem
Bem. Se prometem

Na terra o paraíso
Não é por isso
Que fazem o clamor
À salvação do nosso senhor

O dízimo é o ingresso
Para a eternidade
Mas não vem impresso
O direito à felicidade

Enquanto não morrer
Pague em dia e agradeça
Por ainda ter o de comer

Ore, trabalhe, não esmoreça
Aos maus pensamentos, perdão
Continue, abaixe a cabeça
Penitência e abnegação.

sexta-feira, abril 13, 2012

Profecia


Perdas que sofri
Amores que vivi
Buscas que escolhi
Rumos que segui

Me trouxeram
Onde estou aqui
Me fizeram
O homem que cresci

Aprendi
Não desanimar
Tudo isso

Vai me transformar
Naquilo que eu vi
No fundo desse olhar.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Soneto do amor interrompido

Adeus, amor
Bom te rever
Espero ano novo
Matar a saudade

Nosso amor é assim
Paixão de verão
Brisa leve
Que logo s´esvai

Agora seguimos
Cada um seu caminho
Contarei no calendário

O tempo que falta
Para rever-te, ó querido
Décimo-terceiro salário

domingo, agosto 14, 2011

Excesso



O excesso é o que falta
Mas às vezes sobra
O excesso da calma
Na palma

De sua mão
Deixa de ser o mesmo
E vive um vazio
Sem nenhum sentido

Mas não abre mão
Por medo da solidão

Se sobra vontade
Lhe falta coragem.

sábado, maio 21, 2011

Revolução made in Brazil

Povo toma a Plaza del Sol em Madri, anuncia a manchete do Globo de domingo. Da África para a Ásia, de lá para a Europa. Classe média brasileira, consumidora antenada e voraz de informação instantânea se mobiliza nas redes sociais e organiza sua própria revolução. TV Globo compra os direitos exclusivos de transmissão, vende as cotas de patrocínio, divulga em seus canais de internet e o tópico rapidamente vira #TT.

Zeca Camargo e Gloria Maria transmitem ao vivo, direto de uma praça perto de você. Rapaziada esperta envia SMS pros amigos. Show de Luan Santana, Restart, Pitty e Seu Jorge na Apoteose, em prol do movimento. CQC faz matéria, Alexandre Garcia, os comentários e o Segundo Caderno publica na capa mais uma entrevista do Caetano sobre a insurreição.

CUT intermedia o diálogo entre governo e trabalhadores, alçando o dirigente da vez a uma vaga na Câmara. No Congresso, Gabeira defende a revolução e Artur Virgílio diz que o governo precisa "ouvir a voz das ruas", da qual autodenomina-se paladino. CNBB defende a fraternidade revolucionária, mas afirma que precisam ser preservados os valores cristãos. Centenas de ônibus vindos da Baixada chegam para a grande manifestação evangélica no Aterro do Flamengo, que terá show de cantores gospel.

Bolsonaro convoca a marcha da tradição, família e propriedade e coisa que o valha, com apoio de Marcelo Crivela, ACM Neto e Wagner Montes, que, no programa de TV, manda que "prenda e arrebente" quem for contra. Datena também apóia o movimento. Boris Casoy diz que o país está uma "vergonha", mas em áudio que vaza do estúdio, o âncora afirma que os trabalhadores que se mobilizam "são a escória da sociedade". Sérgio Cabral diz que "o Rio é a vanguarda da revolução no Brasil" e que o estado deve receber royalties por isso. Nas favelas pacificadas, pipa no alto, kichute no fio, pelada na terra e revolução na tv, via gatonet.

Luciana Gimenez recebe no estúdio os líderes do movimento, ao lado de Agnaldo Timóteo e a renascida Rosana, a deusa. Ana Maria Braga convida o líder do segmento estudantil para tomar café da manhã e fazer uma receita ao vivo. No Brasileirão, jogadores entram em campo com faixas dizendo "Revolução, eu apóio", com patrocínio do Itaú, Nova Schin e Coca-Cola.

A proposta de emenda constitucional revolucionária vai para votação na Câmara. O Estadão pede o impeachment de Dilma em editorial reivindicando a posse de Serra, segundo colocado nas últimas eleições. A classe média paulista exige que o comando não seja encabeçado por nordestinos, mas sim por alguma liderança do DEM, PSD e aliados.

Nesse meio tempo, um novo crime passional ou familiar choca a sociedade e todos pedem a redução da maioridade penal para 12 anos. No fim, o governo vence na Câmara e no Senado, com votação esmagadora da "base aliada", leia-se, os neo-revolucionários do PTB, PP, PR e quejandos. E aí, no domingo seguinte faz um puta sol, o último capítulo da novela revela quem matou o vilão da vez, a final do campeonato mobiliza as atenções de todos e ninguém mais se lembra de revolução alguma.

Por Ciço Pereira

sexta-feira, julho 16, 2010

Brasil


Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.

Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.

Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo --
pra tocar.

Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas...

Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão...

Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.

Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.

Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.

Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas

Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão

E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.

Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode.

Letra: Menina Jesus, de Tom Zé.

Memórias

"Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó."

Jorge Luis Borges.

sexta-feira, abril 09, 2010

Sois culpados


“Sois culpados”, sentenciam presidente, governador e prefeito, em meio à campanha eleitoral majoritária, cujo carro-chefe, o PAC, redimirá todos nós.

“Sois culpados”, corroboram Bonner e Bernardes, portavozes do grande capital, em horário nobre, do alto dos púlpitos televisivos do quarto poder.

“Sois culpados”, bradam os conservadores Democratas em referência aos africanos traficados d’além-mar, supostamente escravizados por seus próprios monarcas.

“Sois culpados”, decretava o alcaide Barata Ribeiro quando, no ocaso do século XIX, proclamando o fim da “era dos cortiços”, sem saber que dava início à “era das favelas”.

“Sois culpados”, entoavam Lacerda, Negrão de Lima, Faria Lima e tantos outros que pretendiam remover as favelas do cenário urbano carioca, ignorando a força e a importância daqueles que trabalham de sol a sol para trazer prosperidade ao comércio, serviços e lares de toda cidade do Rio de Janeiro.

“Sois culpados”, clama em uníssono a sociedade civil burguesa para a descomunal massa de excluídos, na tentativa de eximir suas consciências do dolo e da inércia frente à gravíssima iniqüidade da qual é, ao mesmo tempo, vítima, cúmplice e ré.

quinta-feira, abril 01, 2010

Criadores-criaturas

Por trás do segredo dos seus olhos tentava disfarçar as vicissitudes de uma vida vazia. O amor que ficou pra trás, o ódio mal resolvido o luto apaziguado, as palavras não ditas, a sentença não proferida. Injustiça, desamor, silêncio. Seres miseráveis em sua condição de criaturas impotentes perante o criador.

Mas quem vos criou? Seríeis criadores do criador? Ajoelhai-vos diante de vossa criação. Alienai-vos de vosso trabalho, vossas leis. Olvidai-vos de vossa obra e não reconheceis nela vosso próprio labor. Vossas mãos escreveram este livro, mas já não podeis lê-lo. Vosso suor ergueu esta catedral, mas já não podeis nela orar.

Blasfemastes, pecastes. Sois a escória de vós mesmos. Criadores-criaturas ignóbeis.